O céu ensolarado de sábado, 26 de setembro, completou o belo cenário do Centro do Rio de Janeiro para os cerca de 100 participantes da “Trilha da Memória: uma jornada pela Pequena África”, que alcançou sua oitava edição.
Saindo do Museu de Arte do Rio, o passeio percorreu a região assim nomeada pelo artista Heitor dos Prazeres, visitando espaços históricos como a Igreja de São Francisco da Prainha, Pedra do Sal, Jardim Suspenso e Cais do Valongo, convidando o grupo a refletir, a partir do território, sobre a resistência da população negra à escravidão no Brasil e a resgatar os feitos e o legado dessa resistência pela cidade.
O trajeto de aproximadamente 2,5 quilômetros foi guiado pela historiadora e integrante do Núcleo de Atenção e Promoção à Justiça Social (Napjus) do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) Tatiana Lima Brandão, que destacou a crescente participação do público e falou sobre seus pontos favoritos da Trilha.
“Meus lugares favoritos são o Cais do Valongo, que tem uma importância gigantesca por ser porto de entrada dos escravizados aqui no Rio de Janeiro, o Instituto Pretos Novos e o Cemitério dos Pretos Novos, onde muitos foram jogados, nem enterrados foram. É uma simbologia muito importante para a gente tratar”, contou.
O grupo ainda passou por locais que resgatam a produção cultural da população negra, como a Casa da Escrevivência, Casa da Tia Ciata e Casa Omolokun, espaços de valorização da arte, culinária e religiões de matriz africana.
Representando o desembargador Wagner Cinelli e a desembargadora Patricia Serra, presidentes dos Comitês de Promoção da Igualdade de Gênero e de Prevenção e Enfrentamento dos Assédios Moral e Sexual e da Discriminação do TJRJ, a coordenadora do Napjus, Inara Firmino, destacou a atividade como parte de um esforço de letramento racial. Segundo ela, a Trilha da Memória integra o Programa Institucional de Cultivo da Memória, uma das frentes de atuação do TJRJ na implementação do Pacto Nacional do Judiciário pela Equidade Racial.
Humanização da Justiça
O juiz titular da 1ª Vara de Infância da Capital, Gilberto Abdelhay Junior, participou do passeio e apontou a importância da iniciativa no resgate da história da população que, em sua visão, foi responsável pela construção da nação e passou por um processo de apagamento. Ainda de acordo com o magistrado, compreender o passado é um exercício para humanizar a Justiça.
“Isso me ajuda muito na questão da empatia e da sensibilidade com o outro. A gente tem que entender as dificuldades do outro para poder fazer a justiça de forma eficiente. Na medida em que eu começo a olhar o outro, a diferença passa a ser igualdade. Você entende que, numa sociedade que foi muito construída pela população negra, pelos escravizados, você tem um débito enorme com essa população”, afirmou.
Trajeto de aproximadamente 2,5 quilômetros foi guiado pela historiadora e integrante do Napjus do Tatiana Lima Brandão
Resgate da ancestralidade
Para César Augusto Lopes, colaborador do 12º Núcleo Regional (NUR) do TJRJ, a Trilha foi a oportunidade perfeita para reunir a família. Acompanhado pela esposa Ana Paula Barbosa, que relatou arrepios na pele ao entrar no Cemitério dos Pretos Novos, ele também convidou as tias Vanda Lucia e Vilma Lucia, que classificaram o roteiro como “maravilhoso”, superando suas expectativas.
Com brilho nos olhos, Vanda descreveu a sensação de mergulhar nos detalhes da história da Pequena África.
“Quando botei o pé aqui dentro, parece que carrego a ancestralidade da minha família, dos meus antepassados. Eu sempre trabalhei por essa área, sempre soube que ficava atrás do Hospital dos Servidores do Estado, mas nunca tive a oportunidade de ver, de fato, a essência desse lugar”, descreveu.
César afirmou que, a partir de agora, esse tipo de programa fará parte dos roteiros familiares.
“Ganhamos o dia. Nós somos cariocas, conhecemos o Rio, mas a história por trás de tudo isso, a gente não sabia. Vamos fazer esse tipo de passeio com mais frequência”, completou.
PB/IA
Fotos: Rafael Oliveira/TJRJ