Há um momento em que a liturgia dos tribunais cede espaço à vulnerabilidade da vida comum. Não há sentenças, não há becas, não há o peso do martelo. Há apenas o choro de um bebê em um abrigo de Jacarepaguá, ou o silêncio exausto de uma casa a uma da manhã, quando quatro meninos finalmente pegam no sono. É exatamente neste território — o do afeto sem filtros — que o podcast Vozes e Direitos, do TJRJ, ancorou seu mais recente episódio sobre paternidade e adoção. O programa está disponível no canal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) no YouTube e no Spotify.
O programa está disponível no canal do TJRJ no YouTube e no Spotify.
Conduzido com sensibilidade, o programa convidou dois magistrados para falarem sobre seus filhos. De um lado, o desembargador Marco Aurélio Bezerra de Mello, que viu a paternidade por adoção nascer da gratidão; do outro, o juiz Gustavo Kalil, que escolheu abrir as portas de casa para o perfil que o sistema, estatisticamente, costuma esquecer.
Ouvir o episódio é desconstruir, minuto a minuto, a ideia de que a adoção é um ato de benevolência. “Não tem caridade nenhuma. Quem mais recebeu fui eu”, crava o desembargador Marco Aurélio, lembrando o desconforto que sente quando alguém insinua que ele “salvou” a filha.
O seu “momento zero” — o instante em que a decisão de adotar amadurece — surgiu após uma tempestade. Sua filha biológica mais velha havia vencido uma dura batalha contra a leucemia. Curada, deixou na casa um quarto de brinquedos vazio e, no peito do pai, uma vontade imensa de devolver ao universo a graça recebida. A esposa, após uma brincadeira sobre o quarto não estar cumprindo sua “função social”, trouxe os papéis. Semanas depois, o casal recebia a ligação da juíza Mônica Labuto: havia uma bebê de seis meses, mas com diagnóstico de HIV e histórico familiar severo. O desembargador, que no perfil de adoção havia marcado restrição para doenças, viu a teoria desmoronar diante da vida. “O temor de não amar se dissipou no momento em que a peguei no colo, na escada do abrigo. Comecei a chorar da mesma forma que chorei no parto da minha filha biológica”. O susto com o diagnóstico também ficou no passado: tratada com coquetéis antirretrovirais nos primeiros anos, a menina negativou para o vírus.
Se a história de Marco Aurélio fala sobre a quebra dos próprios medos diante de um bebê, o relato do juiz Gustavo é um mergulho profundo nos mares revoltos da adoção tardia. Ele e o então companheiro decidiram preencher o cadastro com aquilo que quase ninguém quer: grupo de quatro irmãos, adoção interracial e tardia (idades de 2, 3, 6 e 12 anos). A equipe técnica do TJRJ não hesitou, pois os meninos estavam prestes a ser separados.
Respondendo a perguntas enviadas pela população nas ruas do Rio de Janeiro — uma marca que torna o Vozes e Direitos tão dinâmico —, Gustavo desmistificou a ideia de que juiz, por ter estabilidade financeira, tem vida fácil na criação. “O mais difícil é o dia a dia. É botar para fazer dever de casa, um faz birra, um briga com o outro. Você tem que ter paciência. As pessoas focam muito no dinheiro, mas o desafio é emocional”.
A sinceridade do magistrado atinge o ápice ao responder se “o amor cura tudo”, clichê repetido à exaustão quando o tema é adoção. “Eu acho que é mito”, responde, com a sobriedade de quem vive a rotina. “Nem todo mundo está preparado para receber o amor que estamos dispostos a dar. Criança de adoção tardia precisa aprender a ser filho. Não é filme da Sessão da Tarde. O que cura é o tempo e a paciência”.
O episódio transita por temas áridos, como o racismo estrutural enfrentado pelos filhos de Gustavo na escola, e quebra mitos de forma didática (homens solteiros podem adotar? Sim; O processo demora porque a Justiça quer dificultar? Não, demora porque criar vínculos exige cautela).
Juiz Gustavo Kalil e desembargador Marco Aurélio Bezerra de Mello compartilharam suas experiências pessoas com a adoção
Mas, talvez, a grande lição do programa venha de uma lembrança compartilhada por Marco Aurélio. Em dúvida, anos atrás, se conseguiria amar a filha adotiva com a mesma intensidade da filha biológica, ele ouviu de um colega especialista no tema, Sávio Bittencourt, uma frase que serve de bússola para qualquer família: “Todo filho tem que ser adotado, seja ele biológico ou não. Existem filhos biológicos que nunca foram adotados pelos pais“.
O Vozes e Direitos entrega, em pouco mais de 40 minutos, uma verdadeira crônica sobre a condição humana. Mostra que o Judiciário é feito de pessoas que, à noite, longe dos processos, também correm atrás de crianças pela casa, vibram quando elas dormem de madrugada e, acima de tudo, escolhem adotar seus filhos todos os dias. Uma audição obrigatória não apenas para quem deseja entrar na fila da adoção, mas para quem deseja entender o que, de fato, significa ser pai.
FB/ SF