Professora denuncia intolerância religiosa após pregação de motorista em ônibus da Baixada Fluminense

Passageira, que usava roupas brancas e colares de candomblé, afirma que o funcionário pediu uma Bíblia a outro usuário da linha e fez uma 'leitura de salvação' sobre céu e inferno, olhando na direção dela.

A professora Katiuscia Lucas Severino, de 39 anos, acusa um motorista da linha Parque Olímpico-Queimados, da Viação Gardel, além de uma passageira ainda não identificada, de intolerância religiosa.

O episódio foi na manhã da sexta-feira passada (3), quando Katiuscia seguia para o trabalho, em Queimados, na Baixada Fluminense, onde dá aulas de Língua Portuguesa na rede pública municipal há dez anos. Ela registrou queixa nesta quinta-feira (9) na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

Iniciada no candomblé há 20 anos, ela usava roupas brancas e colares que indicam seus amuletos pessoais e o povo que ela representa — colares e fios de conta mostram o grau de iniciação de uma pessoa no candomblé e a que nação ela pertence.

Ao embarcar no ponto final da linha, ela foi surpreendida por um momento de oração, feito pelo motorista, antes de dar a partida no veículo.

Segundo a professora, o motorista pediu uma Bíblia emprestada a um passageiro e começou a fazer uma “leitura de salvação”, falando sobre “ir para o céu ou para o inferno”, olhando na direção dela. Ele teria sido chamado de pastor por alguns usuários da linha.

Katiuscia disse ter tentado explicar para o condutor que a postura estava equivocada.

“Eu compreendi que se tratava de uma pregação voltada à presença de um corpo de uma mulher negra de matriz africana. Eu, apenas eu, estava vestida de branco naquele espaço e apenas eu carregava acessórios de uma memória constantemente atacada pelo racismo. Minha primeira ação foi perguntar ao motorista o motivo daquele movimento. Ele respondeu que tinha vidas a salvar e eu afirmei que ali não era um espaço adequado e que ele, por ser motorista, estava atravessando sua função. Coloquei que eu havia pagado a passagem e não queria participar daquele ato, inclusive falei que se ele me devolvesse o dinheiro, eu sairia do ônibus”, conta Katiuscia.

A partir da discussão com o motorista, a professora conta que foi hostilizada por outra passageira até saltar do ônibus, na Estrada do Lazareto.

“Essa passageira disse para mim que sabia quem eu era e qual era minha religião. Quando eu indaguei qual era minha religião, ela, que já estava com expressão de deboche e desdém, afirmou que era só olhar para minha cara. Eu situei que ela estava cometendo racismo por ver uma mulher negra de branco com colares no pescoço e insinuando saber que minha religião era contra Deus. Neste momento, ela começou a reverter a situação e dizer que nós, da minha religião, que éramos intolerantes”.

Depois do episódio, um vídeo mostrando Katiuscia de costas no ônibus e explicando o motivo de discordar da oração foi parar em uma rede social, em dois perfis que seriam de moradores do bairro Valdariosa, em Queimados. Nos perfis, comentários de usuários reforçam a intolerância religiosa ocorrida no ônibus.

Flávia Monteiro, advogada de Katiuscia, explica que, com a abertura do inquérito na Decradi, o motorista, a passageira e o responsável pelo perfil na rede social, ainda não identificados, devem ser chamados para depor. Ela também pretende entrar com medidas judiciais, pedindo reparação e a retirada do vídeo dos perfis do Facebook.

Mudança de itinerário

 

Chamada de Iyá Katiuscia de Yemanjá em sua religião, a professora explica que é yakekerê (que significa mãe pequena) no terreiro Ilê Axé Òbá Labi, em Pedra de Guaratiba. O cargo é uma posição de sacerdócio e representa o matriarcado do terreiro.

Ela conta que já está acostumada a receber perguntas de alunos sobre seus trajes brancos e colares, e que eles costumam ser menos resistentes do que os adultos, quando ela explica sua religião. Apesar de já ter vivido outros episódios de racismo religioso e intolerância, ela se mostra assustada com o que aconteceu há uma semana.

“Dou aula duas vezes na semana em Queimados, mas, desde aquele dia, não entrei mais naquela linha. Durante um tempo não vou pegar mais este ônibus. Só tive a solidariedade de uma passageira, que também era do candomblé e estava acuada”.

O que dizem os envolvidos

 

A Gardel Turismo informou que repudia qualquer ato de intolerância ou preconceito e disse que vai tentar identificar o motorista, para melhor apuração da denúncia, pois o comportamento descrito pela cliente não condiz com os valores da empresa e com o treinamento fornecido aos colaboradores que lidam com o público.

Na Decradi, a acusação foi registrada como preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. De acordo com a Polícia Civil, a delegacia especializada investiga o caso e diligências estão em andamento para esclarecer os fatos.

Até o fechamento desta reportagem, o Facebook ainda não havia respondido sobre a retirada do vídeo da professora da rede social.

O NABALANCANF APENAS REPOSTA A NOTÍCIA QUE SE FEZ PÚBLICA SEM TECER QUALQUER COMENTÁRIO A RESPEITO DA MATÉRIA OU SE RESPONSABILIZAR PELA MESMA. TEM O CUNHO MERAMENTE INFORMATIVO.
Via
Por Eliane Maria e Henrique Coelho, g1 Rio
Fonte
G1

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